O levantamento de Davies sobre os Estados europeus desaparecidos — e uma afirmação controversa sobre Andorra
O catálogo do historiador de Estados extintos ilustra vividamente a transitoriedade do poder, mas simplifica o hino bilingue de Andorra e as origens carolíngias sem consultar fontes locais chave.
Pontos-chave
- Davies cataloga numerosas entidades políticas europeias desaparecidas para ilustrar a transitoriedade do poder.
- Dedica cerca de 100 páginas a Aragão e trata brevemente Andorra como principado antigo e microestado moderno.
- Davies afirma que os andorranos falam catalão e apresenta o hino nacional como bilingue, ligando o Estado a Carlomagno; o revisor contesta estes pontos.
- O revisor chama ao livro absorvente mas critica o uso casual de mitos locais e a falta de fontes especializadas sobre Andorra.
Quando o historiador Norman Davies desenterra entidades políticas desaparecidas em *Reinos desaparecidos: la historia olvidada de Europa*, pretende mostrar à escala continental a antiga verdade de Heráclito: tudo passa. O livro recolhe uma série de entidades outrora proeminentes que acabaram em pó histórico. Num prefácio luminoso, Davies argumenta que «devemos recordar constantemente a fugacidade do poder; a transitoriedade é uma característica fundamental tanto da condição humana como da ordem política, e mais tarde ou mais cedo tudo acaba. Estados e nações, por maiores que sejam, florescem por uma estação e são depois substituídos». O volume é assim um catálogo de falhanços mais ou menos gloriosos: Alt Clut, Borgonha, Saboia, Galiza, Etrúria, Rosenau, Chernagor, Prússia, Éire, a URSS — e, algo inesperadamente, Aragão.
Uma anedota pessoal introduz a peça: na infância, o autor possuía uma enciclopédia Salvat de 1935 cujos mapas desdobráveis mostravam uma Europa pré-Segunda Guerra Mundial — uma Alemanha grande e única estendendo-se à Prússia, uma Polónia encolhida e esticada para leste, e os Estados bálticos como entidades distintas. Esses mapas, outrora relíquias, recuperaram relevância após 1989. Esse sentido de fluxo e refluxo histórico é o que levou o autor ao livro de Davies, comprado na FNAC para aliviar um mau humor e que se revelou impossível de resistir.
Davies dedica cerca de cem páginas a Aragão, e é aí que toca brevemente em Andorra. Escreve que «a leste fica o Principado de Andorra, um dos Estados mais antigos da Europa». Resume a governação invulgar de Andorra: durante sete séculos, desde 1278, o seu governo foi supervisionado pelo Conde de Foix (mais tarde pelo préfet de Ariège) e pelo Bispo de la Seu d’Urgell; desde 1993, nota Davies, Andorra funciona, como Mónaco, Liechtenstein e San Marino, como microestado soberano.
Onde a narrativa de Davies se torna contestável é na sua afirmação sobre a língua e o hino. Afirma que «os andorranos, como os habitantes de La Franja de Aragão, falam catalão, mas o seu hino nacional é bilingue», e reproduz o *Gran Carlemany* em catalão e francês. Davies conclui então que «os andorranos ainda cantam a Carlomagno, pois o país nasceu sob o seu domínio e nunca passou a fazer parte das grandes potências que lhe sucederam no império».
O autor do artigo questiona estas afirmações. Suspeita que Davies não consultou estudos locais mais especializados — por exemplo, *Carlemany i Andorra: història de la Carta Pobla* —, nos quais as bases da narrativa de origem em Carlomagno são criticamente reavaliadas. O artigo argumenta que apresentar o hino como oficialmente bilingue e invocar uma origem ininterrupta em Carlomagno é uma simplificação enganadora e um lapso desnecessário num trabalho de resto cativante.
Apesar dessa crítica, o autor concede que *Reinos desaparecidos* continua a ser uma leitura absorvente: um lembrete convincente da impermanência das formas políticas e um catálogo provocador de atores históricos que outrora pareciam destinados à perenidade mas acabaram por desvanecer. A única deceção real, sugere, é quando um levantamento tão ambicioso trata mitos e complexidades locais com demasiada leveza.
Fontes originais
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