Arqueólogo Raposo defende objetos físicos nos museus em meio à transição digital
Falando na Andorra, líder da ICOM Luís Raposo alerta contra substitutos virtuais, argumentando que os originais proporcionam uma realidade tangível insubstituível e dignidade como investimentos sociais.
Pontos-chave
- Raposo: Museus evoluíram de gabinetes de curiosidades para escolas públicas de cidadania; só 137 dos 1294 de Portugal qualificam oficialmente.
- Sucesso medido por aprendizagem, não visitantes; entradas gratuitas geram 3,5x benefícios económicos por estudo de Londres.
- Paradoxo da arqueologia: Objetos melhores in situ, mas originais são o 'núcleo duro' dos museus.
- Museus físicos vitais contra falsificações de IA; virtuais são apenas bases de dados.
O arqueólogo português Luís Raposo, figura de proa no Conselho Internacional de Museus (ICOM), proferiu uma conferência em Santa Coloma sobre o papel duradouro dos objetos físicos nos museus em meio à rápida digitalização. O evento, intitulado “Museus: Passat, Present i Futur”, realizou-se na histórica igreja de Santa Coloma e contou com a presença de altos funcionários andorranos.
A Ministra da Cultura Mònica Bonell abriu a sessão ao lado de Rut Casabella, responsável pelo departamento de Museus, e Olga Gelabert, embaixadora de Andorra em Portugal. Bonell descreveu os museus andorranos como “espaços vivos e abertos comprometidos com a investigação”, notando que estão em transformação ao abrigo do novo Plano de Museus do país para participar em diálogos globais liderados por especialistas como Raposo.
O cônsul-geral de Portugal, Duarte Pinto da Rocha, destacou os laços culturais entre os dois países, elogiando a autenticidade da preservação do património e a candidatura conjunta de Andorra à UNESCO com a França e Espanha.
Raposo traçou a evolução dos museus desde gabinetes privados de curiosidades até instituições públicas nascidas na Revolução Francesa como “escolas de cidadania”. Notou perto de 100 mil museus em todo o mundo, 70 mil na Europa, mas alertou que nem todos os museus autoproclamados cumprem padrões verdadeiros. Em Portugal, apenas 137 dos 1294 qualificam segundo critérios oficiais. Citando a definição do ICOM de 2022, sublinhou requisitos como investigação, conservação e estatuto sem fins lucrativos.
O sucesso, argumentou Raposo, reside não no número de visitantes mas nos resultados de aprendizagem. Referiu um estudo de Londres que mostra cada libra não cobrada em entradas gerar 3,5 libras em benefícios económicos locais através do turismo e do consumo. Os museus podem faltar rentabilidade a curto prazo mas oferecem “dignidade” como investimentos sociais protegidos pelo Estado e motores indirectos de desenvolvimento.
Ao abordar os paradoxos da arqueologia, disse que a disciplina prefere os objetos in situ, enquanto os museus os descontextualizam por natureza — mas os originais formam o “núcleo duro” de qualquer instituição. Raposo criticou a “museologia de espetáculo” e os museus virtuais, chamando estes últimos meras bases de dados. Numa era de IA propensa a falsidades fabricadas, posicionou os museus físicos como o último bastião da realidade tangível, citando Steve Conn para afirmar: os museus ainda precisam de objetos.
A noite sublinhou a natureza analógica da humanidade e o valor insubstituível da história material para a auto-compreensão.
Fontes originais
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